Uma publicação inédita para auxiliar o setor produtivo brasileiro a encontrar oportunidades no mercado global em um cenário repleto de turbulências geopolíticas. É isso o que promete o Radar Geopolítico da Indústria, lançado nesta quarta-feira pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).
A publicação inédita funciona como um guia estratégico na tomada de decisão empresarial até 2027, conectando análises da CNI a levantamentos globais de referência, como o Global Risks Report 2026 do Fórum Econômico Mundial, dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), do McKinsey Global Institute e do Centro de Estudos Globais da Universidade de Brasília (CEG/UnB).
O objetivo é munir líderes empresariais com uma visão macro diante de um cenário dinâmico, auxiliando na priorização de ações, no monitoramento de riscos e na identificação de oportunidades estratégicas, com medidas esperadas tanto das empresas quanto de entidades representativas e governos. A análise já leva em conta o resultado da eleição presidencial brasileira.
De acordo com o presidente da CNI, Ricardo Alban, o mapeamento inédito feito pela indústria reforça a importância de que as variáveis geopolíticas estejam nas mesas de discussão do setor produtivo. “A geopolítica global vive um momento de profundas reconfigurações que passaram a orientar o ritmo do comércio internacional. O Radar Geopolítico da Indústria nasce para entregar aos empresários brasileiros inteligência antecipatória, permitindo transformar incertezas em estratégias concretas de negócios, diversificação de mercados e atração de investimentos para o Brasil”, afirma o executivo.
O painel resume os principais riscos e oportunidades geoeconômicos para a indústria brasileira no horizonte 2026–2027. São 17 itens (veja lista abaixo), organizados por grau de urgência (verde, amarelo e vermelho) e de impacto sobre comércio, investimentos, cadeias produtivas e competitividade.
Os temas vão desde medidas nacionais, como a projeção da taxa básica de juros, passa por iniciativas comerciais e regulatórias, como as tarifas dos EUA e o Mecanismo de Ajustamento de Carbono na Fronteira (CBAM) da União Europeia para incorporar nos valores pagos pelas importações as emissões de carbono do produto, à concorrência chinesa, além de fatores estruturais ligados à logística, à tecnologia, à segurança econômica e à integração regional.
Frederico Lamego, assessor especial de Assuntos Internacionais da Presidência da CNI destaca que as análises ainda serão aprofundadas setorialmente, mas que já servem de guia em momentos de incerteza. “Não se trata apenas de entender que existe, por exemplo, uma crise no Irã que está aumentando o preço do petróleo, mas, sobretudo, para que as empresas e os empresários entendam que existe uma correlação entre diversas variáveis e que, se essas variáveis forem previamente entendidas, é possível antecipar riscos e isso vai possibilitar para as empresas navegar num cenário de menos incerteza”, afirma.
Diplomacia Industrial
O lançamento do relatório fez parte do Fórum da Diplomacia Industrial, realizado nesta quarta (4) na sede da entidade, em Brasília. O encontro reuniu cerca de 180 participantes, entre embaixadores de mercados estratégicos, lideranças empresariais, autoridades do governo federal e representantes da academia, para impulsionar negócios, atração de investimentos e cooperação internacional em ciência e tecnologia.
Lamego conta que a seleção da agenda e dos convidados seguiu uma lógica de interesses estratégicos para a indústria brasileira. “Temas como minerais críticos, transição energética, defesa, começam a entrar na pauta e aqueles países que souberem aproveitar essa onda buscando projetos e parcerias de transferência de tecnologia e de cooperação vão ser aqueles que vão se projetar melhor nesse cenário de incerteza”, conclui.
A proposta do encontro é consolidar uma plataforma contínua de diálogo entre o setor privado e o corpo diplomático em Brasília, transformando essas relações em oportunidades concretas de negócios e parcerias tecnológicas.
O Radar
Confira os principais riscos e oportunidades para a indústria brasileira no horizonte 2026–2027 mapeados pelo Radar Geopolítico da Indústria:
- Tarifas dos Estados Unidos: tarifas adicionais de até 37,5% sobre produtos brasileiros ameaçam a competitividade das exportações e exigem estratégias para reduzir os impactos comerciais.
- Taxação de carbono da União Europeia (CBAM): o mecanismo aumenta os custos de exportação de produtos como ferro-gusa, aço e alumínio, conforme as emissões de carbono incorporadas.
- Alta dos fretes marítimos: conflitos no Oriente Médio elevam custos de transporte, pressionam preços de insumos importados e reduzem margens das exportações brasileiras.
- Sobrecapacidade mundial em aço e manufaturados: excesso de produção global, especialmente na China, aumenta o risco de entrada de produtos importados a preços competitivos e pressiona a indústria nacional.
- Proliferação de medidas de defesa comercial: tarifas, medidas antidumping e salvaguardas fragmentam mercados e podem desviar exportações de grandes economias para o Brasil, ampliando a concorrência interna.
- Custo de capital elevado: juros altos até 2027 encarecem financiamentos, capital de giro e investimentos, limitando a capacidade produtiva da indústria.
- Restrições chinesas às terras raras: o controle da China sobre o refino e a fabricação de ímãs permanentes ameaça o fornecimento de insumos estratégicos para motores elétricos, energia eólica e eletrônicos.
- Tensões no Estreito de Taiwan: eventual conflito ou interrupção logística na região pode comprometer o fornecimento mundial de semicondutores e afetar cadeias industriais brasileiras.
- Disputa comercial entre Brasil e Argentina: acordos argentinos com os Estados Unidos e o avanço da China no mercado vizinho podem reduzir o espaço brasileiro no comércio regional e tensionar o Mercosul.
- Insegurança cibernética: ataques a sistemas industriais e infraestruturas críticas elevam riscos operacionais, financeiros e de interrupção das atividades produtivas.
- Sanções internacionais e crime organizado: mudanças nas classificações e sanções impostas pelos Estados Unidos podem ampliar exigências de compliance e expor empresas brasileiras a riscos jurídicos e financeiros.
- Regulação e riscos da inteligência artificial: novas exigências regulatórias e a concentração do desenvolvimento tecnológico em poucas empresas podem aumentar custos e dependência de fornecedores estrangeiros.
- Minerais críticos e hidrogênio verde: a demanda global e a reorganização das cadeias produtivas abrem oportunidades para atrair investimentos, ampliar a produção nacional e fornecer insumos estratégicos.
- Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE): a precificação do carbono no Brasil poderá reduzir custos associados ao mecanismo europeu CBAM e favorecer exportadores de aço e alumínio.
- Novos mercados por meio de acordos do Mercosul: tratados comerciais com União Europeia, Singapura e EFTA, além de negociações com outros países, ampliam destinos para produtos brasileiros de maior valor agregado.
- Integração comercial regional: o baixo comércio entre países da América Latina revela espaço para ampliar negócios, fortalecer cadeias produtivas e explorar um mercado regional de aproximadamente 660 milhões de pessoas.
- Corredores bioceânicos: novas rotas de infraestrutura entre Brasil, Paraguai, Argentina e Chile podem reduzir custos logísticos, facilitar o acesso aos mercados asiáticos e fortalecer a integração sul-americana.
Fonte: Brasil 61
